sábado, 13 de dezembro de 2008

Levanta-te, vem para o meio

Por Edivaldo dos Santos Junior


Atualmente a sociedade tem falado muito de inclusão daqueles que apresentam diferenças[1] sensórias, mentais, físicas, entre outros. Algumas leis de acessibilidade têm sido criadas a favor destes grupos diversos para que sejam respeitados dentro de suas particularidades. Entretanto, apesar de todas as leis que existem, a verdadeira inclusão ainda é algo pouco praticado no Brasil e em vários outros países do mundo. Trazendo para a realidade das comunidades religiosas, como será que tem acontecido essa inclusão dos diferentes? Será que existe algum tipo de inclusão em nossas comunidades de fé? Jesus e a proposta do cristianismo estão preocupados com a problemática da inclusão? Qual é o lugar do diferente dentro do nosso meio social e nossas igrejas? Essas são perguntas cruciais que dizem respeito a todos os seres humanos. Devemos buscar algumas pistas para que possamos viver e práticar a inclusão. Serão apresentadas algumas possibilidades que Jesus nos ensina para que a inclusão se torne algo real e praticado por todas as pessoas. Isso será feito a partir da análise da perícope do livro do Evangelho de Lucas 6.6-11

- O legalismo religioso que inviabiliza a inclusão.

6 Sucedeu que, em outro sábado, entrou ele na sinagoga e ensinava. Ora, achava-se ali um homem cuja mão direita estava ressequida. 7 Os escribas e os fariseus observavam-no, procurando ver se ele faria uma cura no sábado, a fim de acharem de que o acusar. v. 6, 7

Jesus estava a ensinar na sinagoga e ali se encontrava um homem que tinha uma de suas mãos ressequidas. Estavam ali também os escribas e fariseus, que eram considerados as autoridades religiosas daquele periodo, porém, não estavam ali para aprenderem o que Jesus estava a ensinar, mas sim com o objetivo de encontrar alguma falta para poderem o acusar. É interesante observar que era um sábado e que neste dia segundo a lei era terminantemente proibido realizar o ato da cura. Existem dois polos muito interessantes que devem ser olhados com cuidado. A prática de pedagogia de Jesus e o pensamento limitador e legalista dos escribas e fariseus. Enquanto Jesus ensinava a todas as pessoas, inclusive ao homem da mão ressequida, os representantes da leis queriam apenas encontra nas ações e palavras dele algo que fosse contra a lei, sem levar em consideração os seres humanos e suas necessidades. O legalismo religioso inviabiliza a inclusão pois não se importa com o ser humano, e sim se ele está ou não batendo na cartilha proposta pela lei que é absoluta. Atualmente temos algo muito parecido com isso que é o fundamentalismo. Esse tipo de pensamento se acha o dominador da verdade absuluta e não se importa com os seres humanos, mas quer apenas doutrinar e oprimir as pessoas com essas verdades.

- O rompimento com o sistema religioso excludente.

8 Mas ele, conhecendo-lhes os pensamentos, disse ao homem da mão ressequida: Levanta-te e vem para o meio; e ele, levantando-se, permaneceu de pé. v. 8

Jesus sabia muito bem que aqueles homens da lei não estavam ali para aprender com ele, e sim para acharem meio para o acusar. Porém, mesmo sabendo disso ele dá um passo que rompe com a estrutura do sistema religoso excludente daquele periodo e propõe algo fascinate e trasnformador. Ele olhou para aquele homem da mão ressequida, que certamente vivia excluido por ser uma pessoa diferente daquelas ditas “normais” e o convida a se levantar, e vir para o meio deles. Essas palavras relatadas pelo escritor bíblico do livro de Lucas é uma denuncia de exclusão que a religião e sociedade daquele periodo realizava e que Jesus certamente combatia. Aquele homem devia estar ali ouvindo os ensinamentos de Jesus mas estava a margem daquele grupo, pois a religião e sociedade da época, e também nos dias de hoje, fazia isso com todos os diferentes sensorias, mentais, fisicos e também com as mulheres, crianças e gentios. Muitas vezes as pessoas diferentes estão em nossas igrejas mas nós a colocamos dentro de um cercadinho junto com outras pessoas e não nos importamos com elas. Estão no mesmo ambiente da igreja, assim como aquele homem estava ali na sinagoga ouvindo Jesus ensinar, mas são marginalizados dentro do próprio meio, colocados no cercado dos diferentes, ou das crianças, entre outros. Jesus propõe algo revolucionário e libertador. Ele convida aquele homem marginalizado a vir para o meio. Jesus diz para ele se levantar com suas próprias pernas, e isso mostra que todos os diferentes são capazes de serem sujeitos e agentes de sua própria história, sem a nessecidade de paternalismo e coisas do tipo. Romper com o sistema religioso exlcudente é não apenas colocar os diferentes dentro das nossas comunidades religiosas, mas é leva-los até o meio e dar oportunidade para que eles sejam protagonistas de sua história, junto com todos os outros irmãos.

A campanha da fraternidade de 2006 promovida pela Igreja Católica aqui no Brasil junto com a CNBB abordou sobre o seguinte tema: Levante-te, vem para o meio. Resolvi colocar como ilustração um trecho da letra desta música da campanha que fala exatamente dessa possibilidade de inclusão e viver junto, para que possamos refletir e buscar uma forma de ação neste sentido.

 
Levanta-te, Chega pra cá e vem para o meio!
Levanta-te, Une teu canto a nosso cantar!
Levanta-te, Chega pra cá e vem para o meio!
Levanta-te, Vem companheiro(a) à vida brindar!(...)
Se o teu olhar mais além enxergar,
Se o teu ouvido escutar as entranhas,
Se a tua mão a do manco apertar,
Dos excluídos se atendes o anseio,
E o solitário, se o trazes pro meio,
Um novo tempo vais inaugurar!
 
- A valorização e inclusão do humano. 

9 Então, disse Jesus a eles: Que vos parece? É lícito, no sábado, fazer o bem ou o mal? Salvar a vida ou deixá-la perecer? 10 E, fitando todos ao redor, disse ao homem: Estende a mão. Ele assim o fez, e a mão lhe foi restaurada. v. 9,10

Jesus faz algumas perguntas aqueles mestres da lei que mostram realmente o que é mais importante. Jesus vai alem do legalismo religioso e realiza a inclusão daquele ser humano que antes estava a margem, mas agora está no meio social como uma pessoa digna. O que é mais importante, salvar a vida ou deixa-la perecer? Jesus estava se referindo a lei que proibia fazer qualquer ação no sábado. Ele mostra com a sua ação de cura daquele homem que o mais importante é a vida, por isso devemos escolher sempre a vida, a valorização do ser humano está acima de qualquer legalismo ou fundamentalismo. Essas perguntas retóricas que Jesus faz os mestres da lei é para mostrar que o ser humano, seja ele quem for, precisa ser valorizado como tal acima de todas as coisas. O ato da cura serve para mostra não apenas a questão milagrosa que Jesus operou, mas sim a proposta de inclusão daquele homem na sua sociedade daquele período. Mesmo que aquele homem não fosse curado, ele já tinha sido trazido ao meio e sido incluído, segundo a proposta de Jesus, naquele grupo que estava ali a ouvir os seus ensinamentos. Não devemos querer que os diferentes se tornem iguais a maioria, mas sim respeitá-los dentro das suas particularidades. Como seguidores de Jesus Cristo que somos, devemos aprender a viver com os diferentes, e convidá-los a vir para o meio para que possamos ceia e partir o pão juntos praticando a verdadeira fraternidade.

No final da reunião que gerou o Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI) ocorrido em 1992, foi cantada uma música que convida a todos para a ceia do senhor, e que nos ensina muito sobre a proposta de inclusão defendida neste sermão.

“Venham, celebremos a ceia do Senhor,

Façamos todos juntos um enorme pão

E preparemos muito vinho como em Caná

Que as mulheres não esqueçam o sal

Que venham muitos convidados

Cegos, surdos, coxos, pobres.

Ninguém ficará com fome.” Letra de Elza Tamez e música de Flávio Irala.

A inclusão é possível, o viver junto com compaixão não é algo utópico e difícil de ser realizado. Basta que cada cristão busque vencer o legalismo que viabiliza a exclusão, rompendo com suas estruturas e propor uma valorização e inclusão de todos aqueles que são diferentes para que juntos possamos participar e partilhar da grande ceia de celebração a vida. Entretanto, as nossas ideologias e práticas religiosas fazem com que nos afastemos das pessoas para viver uma vida ascética de plena contemplação vertical. Se quisermos levar a sério a proposta de inclusão que Jesus apresentou neste relato do homem da mão ressequida, precisamos ir além de fundamentalismo e legalismo e viver mais a postura horizontal buscando valorizar o humano e percebê-lo de uma forma integral. O amor e a compaixão pelos diferentes precisam fazer parte daquele cristão que deseja viver e praticar a verdadeira inclusão que vai além de assistencialismo.

Aprendemos que é possível praticar a inclusão dentro de nossas igrejas, e uma inclusão que sirva de modelo para todas as outras estruturas presentes na sociedade, como escolas, empresas, entre outros. Devemos e podemos ser modelo para esta sociedade tão exclusivista e opressora. Convido-te a ser um promotor da inclusão na sua comunidade religiosa e em sua sociedade. Traga os excluídos para o meio e lhes de a oportunidade de serem protagonistas de sua própria historia. A exemplo de Jesus, convido-te a ultrapassar as barreiras dos legalistas e fundamentalistas religiosos que não consideram a humanidade das pessoas. Irmão, levanta-te, e convide a outros a se levantarem e virem para o meio junto com você. Surdos, cegos, coxos, pobres, ricos, mulheres, crianças, e todos os seres humanos. Vamos juntos celebrar a vida e a diversidade em comunhão com todos os seres humanos e com a criação.

Bibliografia

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ed. revista e atualizada. 2 ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

Campanha da Fraternidade 2006. Música. http://vagalume.uol.com.br/musicas-catolicas/levanta-te-vem-para-o-meio-campanha-da-fraternidade-2006.html acessado em 10/11/08

NETO, Luiz Longuini. A missão como serva da liberdade e da esperança. Revista Brasileira de Teologia, Rio de Janeiro, n. 2, p. 53-64. 2005.



[1] Utiliza-se o termo diferença em lugar do termo deficiência. Faz-se isso pelo fato deste termo deficiência estar carregado de preconceitos, e leva a se perceber esses indivíduos diferentes sobre uma ótica da inferioridade. Deficiente é um termo que olha pelo lado patológico, isto é, algo que lhe falta e que lhe faz ser incapaz em algum aspecto, mas isso é um erro. Pois não existe ser humano deficiente, e sim com diferente e com muita capacidade e coisas a ensinar e contribuir com a sociedade de forma geral.